Reclusos Chineses Forçados a Trabalhar Jogando

Reclusos a jogar para os guardasMuitas pessoas já se encontram familiarizadas com o sistema de campos de trabalhos forçados existente na China. Aquilo que muitos podem desconhecer é que, além de produtos físicos, os reclusos foram obrigados a produzir artigos virtuais para serem utilizados em jogos online.

Conhecida, normalmente, como "cultivo de ouro" (do inglês "gold farming"), a prática de realizar tarefas mundanas em videojogos com vista a criar ferramentas de jogo e créditos que, posteriormente, podem ser vendidos a troco de dinheiro real, tem vindo a aumentar exponencialmente na China. Em 2011, foi feita uma estimativa de que 80% dos "cultivadores de ouro" (do inglês "gold farmers") a nível mundial se encontravam na China, sendo que, devido à falta de regulamentação relativamente aos jogos virtuais, os reclusos eram facilmente explorados nessa área.

Uma Gigantesca Mina de Ouro para os Responsáveis das Prisões

Um ex-recluso, que prestou declarações ao The Guardian sob condição de que o seu nome fosse alterado, presumivelmente, por temer pela sua segurança, afirmou que, enquanto esteve detido, jogou 12 horas de cada vez, lado a lado com cerca de 300 outros reclusos. Os computadores "nunca eram desligados" e o homem recorda-se de ouvir os guardas dizerem que conseguiam ganhar, por dia, entre 5000 e 6000 rmb, ou seja, entre 630 eur e 764 eur.

Apesar de o trabalho físico extenuante continuar, certamente, a fazer parte do "processo de reeducação" pelo qual este prisioneiro passou, as suas piores memórias são as da privação de sono e das exigências constantes associadas à atividade de jogar os videojogos. Se alguém ficasse para trás e não concluísse a respetiva quota de trabalho exigida, era espancado fisicamente.

Devido à falta de regulamentação no comércio de moeda virtual integrado em jogos multijogador na China, bem como às condições deploráveis existentes nos campos de trabalho, os guardas conseguiam manter os reclusos a jogar os jogos, vender os ativos e embolsar os lucros sem qualquer registo oficial dessa situação. Tal como no caso dos artigos físicos obtidos através de trabalhos forçados realizados por reclusos em "fábricas de suor" dispersas por toda a China a troco de salários de servidão, assim acontecia também com os ativos de videojogos.

A Situação Atual

Uma diretiva emitida em 2009 pelo governo central chinês definiu as formas autorizadas através das quais as moedas fictícias podem ser negociadas. Isso exigiu que as empresas envolvidas em tais atividades tivessem licenças e fossem regulamentadas, o que viria a eliminar, efetivamente, as situações de abuso de reclusos para fins de "cultivo de ouro". No entanto, muitas pessoas não acreditam que um negócio tão lucrativo para os guardas prisionais pudesse ser impedido com tanta facilidade. Afinal de contas, o trabalho prisional ainda se encontra muito difundido e apesar de, na China, a utilização de moedas virtuais para comprar artigos reais constituir um ato ilícito, fazer o contrário não é ilegal.

Uma vez que se poupa muito tempo ao comprar ativos obtidos através do "cultivo de ouro", em vez de os obtermos nós mesmos enquanto jogamos online, existe um mercado imediatamente disponível de entusiastas de jogos dispostos a fazer isso, precisamente. É fácil imaginar aqueles que se dedicam a sério à obtenção de lucros com os jogos de casino online a utilizarem a mesma ideia e a pagarem salários mínimos a certas pessoas para continuarem a jogar em nome deles horas a fio. Tecnicamente, isso só poderia ser feito com base na teoria da opção de AutoPlay, que tantos jogos disponibilizam!

O "Cultivo de Ouro" Pode Ser uma Coisa Boa 

Os estudos académicos sobre o "cultivo de ouro" sugerem que as redes sociais envolvidas são semelhantes às dos cartéis de droga, mas também existem outros que afirmam que o "cultivo de ouro" pode ser utilizado com um excelente efeito socioeconómico. O Professor Richard Heeks, da Universidade de Manchester, diz que os montantes de dinheiro trocados são suficientemente pequenos para fluírem com facilidade a partir de jogadores do primeiro mundo, mas também são suficientemente grandes para produzirem um impacto substancial na vida das pessoas que trabalham na atividade do "cultivo de ouro".

Quer se trate de videojogos ou casinos online e quer a atividade decorra dentro ou fora da prisão, a ideia de existirem bancos de trabalhadores a jogar com o objetivo de ganharem ativos ou lucros para outras pessoas parece ser capaz de gerar proveitos sustentáveis, podendo constituir uma forma de se criar prosperidade económica num mundo que funciona, cada vez mais, com base na tecnologia. Não obstante, como sempre, é necessário que existam regulamentos rigorosos, a fim de se evitar a ocorrência de abusos.

Fontes:

Postado por Joel Howell
2018-08-29